Você já reparou como a pergunta “e aí, tá corrido?” virou uma espécie de cumprimento?
Estar sobrecarregado virou quase status. Uma forma de dizer que estamos sendo úteis, importantes, produtivos. Mas… e se a gente não quiser mais correr?
E se trabalhar menos for, na verdade, uma estratégia coletiva de sobrevivência?
Mais do que um privilégio ou uma utopia uma forma de reorganizar o tempo, a saúde e as relações?
Vamos com calma: trabalhar menos pode, sim, ser uma tecnologia social.
E não, não é sobre fazer o mínimo. É sobre fazer caber a vida no centro da equação.
O mito da produtividade infinita
A ideia de que podemos (e devemos) render o tempo todo é recente. Nasceu com o relógio de ponto, cresceu com os e-mails e atingiu o auge com as notificações.
Só que os nossos corpos, nossas ideias e nossas relações não funcionam assim.
Produtividade infinita é um mito.
E insistir nela tem gerado consequências reais: ansiedade, burnout, desengajamento, cansaço crônico.
Menos horas, mais sentido?
Diversos experimentos de jornada reduzida (como a semana de 4 dias) têm mostrado que trabalhar menos horas não reduz a produtividade. Em muitos casos, ela até melhora.
Por quê?
Porque o que sobrecarrega não é só a quantidade de horas, mas a qualidade do tempo.
Trabalhar com foco, clareza e pausas pode render mais do que uma jornada arrastada de 10 horas em modo zumbi.
Quem pode trabalhar menos?
Vamos ser sinceros: trabalhar menos ainda é um privilégio para muita gente.
Nem todo mundo pode simplesmente pedir demissão, reduzir a carga horária ou negar um job.
Mas reconhecer esse sistema — e suas falhas — já é um começo.
E dentro do possível, pequenas mudanças individuais também contam:
- Negociar prazos mais humanos
- Colocar limites claros no horário de trabalho
- Dizer “não” a demandas urgentes sem urgência real
- Planejar tempo ocioso como parte da rotina
Essas escolhas, ainda que pequenas, são gestos políticos.
O descanso como projeto coletivo
Quando a gente fala em “trabalhar menos”, não estamos falando só de autocuidado.
Estamos falando de tempo para criar vínculos.
De espaço para cuidar de outras pessoas.
De não precisar escolher entre o trabalho e a vida.
Se esse tema te pega, vale ler também: O tempo que não rende, mas sustenta
A cultura do descanso não é escapismo. É uma nova lógica — mais cooperativa, mais gentil, mais justa.
Trabalhar menos não é sobre fazer pouco.
É sobre fazer com mais presença.
Com mais intenção.
E com espaço para respirar entre uma entrega e outra.
Talvez não seja só uma escolha individual.
Talvez seja uma tecnologia social.
Uma que a gente está ensaiando, aos poucos.

