Existe uma cena que se repete com frequência nos grupos de amigos na faixa dos 30 e poucos anos: alguém confessa, meio brincando, meio falando sério, que largaria tudo para morar no mato. A frase pode parecer um meme cansado, mas por trás do tom de piada existe uma inquietação real. Uma fadiga que não é só física, mas mental, emocional e até existencial.
Viver na cidade tem seus encantos, claro. Mas também tem seu preço. E ele anda caro demais. Trânsito, barulho, excesso de tela, rotina acelerada, agenda lotada, produtividade como padrão. É um ciclo que, aos poucos, vai deixando a gente sem fôlego. E é nesse contexto que o mato aparece como promessa de um respiro.
O mato virou símbolo de descanso, de retorno ao essencial
Não se trata só de árvores, rios ou cachorros soltos no quintal. A imagem do mato representa um desejo de outro ritmo. Uma vontade de silêncio. De tempo. De presença. É como se nosso corpo estivesse tentando nos lembrar de que viver precisa de espaço, e não apenas no Google Calendar.
Estudos da neurociência e da psicologia ambiental mostram que o contato com a natureza melhora o humor, reduz os níveis de cortisol, estimula a criatividade e até acelera processos de cura. Andar descalço na terra, olhar para o céu, cozinhar sem pressa, ouvir o som dos passarinhos. Parece simples. E é. Talvez por isso funcione.
Mas será que é possível mesmo largar tudo e ir viver no mato?
A resposta depende. Nem todo mundo quer, e nem todo mundo pode viver fora do circuito urbano. E tudo bem. A vida no mato, como muitos imaginam, também tem seus desafios. Internet instável, isolamento, falta de infraestrutura, saudade de quem ficou na cidade. A ideia de refúgio, se levada ao pé da letra, pode se tornar outro tipo de exaustão.
Mas a boa notícia é que talvez a gente não precise mudar de CEP para viver de forma mais natural. Talvez o que buscamos não seja exatamente um lugar físico, mas uma maneira diferente de estar no mundo. E isso pode começar em casa.
É possível cultivar o espírito do mato mesmo vivendo na cidade
Aos poucos, cada vez mais pessoas têm criado pequenas rotas de fuga no cotidiano: hortas no quintal ou na varanda, trilhas no fim de semana, temporadas de trabalho remoto em cidades menores, pausas verdadeiras na agenda, rituais mais lentos, comidas feitas com as mãos. É como se quiséssemos reaprender a viver sem precisar esperar o burnout chegar.
O mato virou metáfora de uma nova busca: viver com mais presença
O mato é onde o tempo desacelera, onde a escuta é possível, onde o corpo se alinha com o que sente. Quando a gente diz “quero um lugar no mato”, talvez estejamos dizendo “quero uma vida que caiba em mim”. E não uma vida onde eu precise me apertar para caber.
Esse movimento não tem a ver apenas com fugir da cidade. Tem a ver com criar condições de permanência na própria vida. O mato, aqui, é só o símbolo. O que ele representa é o que realmente importa: a chance de recuperar o que fomos deixando pelo caminho.
Talvez o lugar no mato que tanta gente deseja não esteja num mapa. Ele começa quando a gente começa a escolher o que não abre mão de sentir.

