Existe o lugar no mapa. E existe o lugar dentro da gente.
Quando vivemos em trânsito, a ideia de casa se transforma. Deixa de ser ponto fixo e passa a ser sensação. Um cheiro. Um som. Uma rua por onde andamos sem pressa. Um café em que fomos ouvidos. Um teto que nos acolheu por uma semana e ficou pra sempre na memória.
Esses lugares, mesmo que não tenham CEP fixo, passam a fazer parte de quem somos. São nossas cartografias afetivas — mapas que a gente carrega na pele, na lente da câmera, no caderno, na saudade.
E a cultura, com sua capacidade de organizar o mundo em sentidos, ajuda a desenhar esses mapas.
O que são cartografias afetivas?
Mais do que uma representação geográfica, cartografias afetivas são formas de registrar a experiência emocional dos lugares. Elas aparecem em poemas, músicas, fotografias, filmes, relatos. São memórias que se tornam linguagem.
Não importa se você ficou uma tarde ou seis meses. O que conta é a intensidade do que foi vivido. É o que ficou, mesmo depois de partir.
A arte como guia de memórias
Pense nas músicas que te lembram uma viagem. No cheiro que te transporta para outra cidade. Na fotografia que capta a luz exata de um fim de tarde em que você sentiu que estava no lugar certo.
Tudo isso é cultura criando mapa. Não de rotas, mas de sentidos.
Artistas como Cildo Meireles, Christian Boltanski e Rosângela Rennó trabalham o espaço como arquivo de memória. Seus trabalhos mostram que o lugar é também o que sentimos nele. E, às vezes, o que perdemos ali.
Lugar não é só geografia — é relação
Na vida nômade, a pergunta “de onde você é?” começa a perder sentido. Mais interessante talvez seja perguntar: onde você já se sentiu em casa?
A resposta pode ser múltipla. Pode mudar com o tempo. E tudo bem.
A cultura nos ajuda a narrar esses deslocamentos sem a obrigação de pertencer a um único ponto no mapa. Através da arte, do cinema, da escrita, a gente aprende que pertencer pode ser sentir-se à vontade com o próprio movimento.
Como construir suas próprias cartografias
Se você vive em trânsito, pode cultivar suas cartografias afetivas como forma de presença. Algumas sugestões:
- Tire fotos de coisas pequenas (placas, portas, texturas)
- Escreva impressões sobre cada lugar por onde passa
- Crie playlists que representem cidades ou momentos
- Guarde objetos simbólicos: um bilhete, uma folha, um guardanapo com nome escrito
- Releia ou revisite tudo isso com frequência — pra lembrar que você tem uma coleção de mundos dentro de si
A gente pode não saber onde vai estar mês que vem. Mas pode saber onde fomos felizes. Onde fomos vistos. Onde deixamos um pedaço de nós.
As cartografias afetivas são, talvez, a forma mais bonita de mapear uma vida em movimento. E, através da cultura, conseguimos transformar esses mapas em narrativa — e esses caminhos em pertencimento.

