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Cabo Polonio, o lugar onde o silêncio fala

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Chegar a Cabo Polonio é como atravessar para outra frequência. O carro para antes mesmo da estrada terminar. O último trecho se faz em caminhões adaptados com bancos de madeira (as chamadas jardineiras). O caminho não tem asfalto. Não tem placas. À medida que a estrada desaparece, o tempo parece desaparecer junto.

As dunas engolem qualquer sinal de civilização, e a travessia se torna quase um ritual. Você sente o corpo desacelerar. O sinal do celular some. A cidade fica para trás.

Ao avistar o mar pela primeira vez, você entende: aqui, o ritmo é outro.

Cabo Polonio é um vilarejo isolado na costa do Uruguai, cercado por reservas naturais e habitado por pescadores, artesãos e viajantes que decidiram ficar por mais tempo do que o planejado. Não há ruas de paralelepípedo, nem luz elétrica convencional. As casas são simples, coloridas, muitas feitas de madeira ou reaproveitadas de materiais encontrados por ali.

Durante o dia, a luz do sol guia tudo. À noite, as estrelas fazem seu trabalho (e fazem bem). Ver a Via Láctea com nitidez assusta um pouco. Lembra que ela sempre esteve ali. A gente é que estava ocupado demais para olhar.

O silêncio em Cabo Polonio não é a ausência de som.
É a presença de outra coisa.

É o som do mar batendo nas pedras grandes, é o farol pulsando devagar ao fundo, é o passo leve de alguém caminhando na areia. É o murmúrio dos leões-marinhos que descansam ao sol, o chiado do vento nas dunas, o riso abafado de um grupo ao redor de uma fogueira. É como se a paisagem inteira falasse uma língua que a gente tinha esquecido como ouvir.

Ali, tudo nos convida a estar. Não há lojas de marca, nem filas, nem vitrines brilhando com promessas. Não há “o que fazer”, há o que sentir.

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Você aprende a medir o tempo pelo calor do sol na pele, pela direção do vento, pelas marés que decidem se é hora de mergulhar ou de só contemplar. Aos poucos, o corpo entra no compasso do lugar. As ideias desaceleram. A urgência evapora. A mente se esvazia, mas não como quem esquece e sim como quem se limpa.

Em Cabo Polonio, dormir cedo vira uma escolha fácil. Comer com calma vira regra. Conversar olhando nos olhos parece mais natural do que nunca. As conexões são outras. Mais suaves. Mais silenciosas.

É difícil explicar o que acontece ali. Talvez porque quase nada aconteça e é justamente isso que mexe com a gente. A falta de barulho não é incômoda, é terapêutica. É como se o silêncio fosse um idioma que só é compreendido depois de alguns dias de convivência. Ele vai se acomodando, abrindo espaço, e quando você se dá conta, está respondendo em silêncio também.

Em algum momento, você se lembra que vai embora.
E é aí que percebe: esse silêncio vai junto.

Vai guardado na pele salgada, nas imagens que insistem em voltar quando o mundo aperta de novo, nas saudades que não doem, apenas lembram. Porque Cabo Polonio não é um lugar que se risca do mapa depois da viagem. É um território interno. Uma pausa que continua reverberando muito depois que o caminhão volta a cruzar as dunas.

Talvez todo mundo devesse visitar um lugar assim uma vez na vida.
Ou, quem sabe, lembrar que o silêncio pode ser acessado mesmo longe dali.

Às vezes, o que falta não é mais estímulo.
É menos ruído.
É um lugar onde tudo cala — e, finalmente, a gente escuta.

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