Nos últimos anos, o burnout se tornou um assunto comum. Não raro, é tema de rodas de conversa, reportagens, campanhas de saúde mental e posts viralizados. Mas será que estamos falando mesmo sobre ele? Ou apenas tentando aliviar seus sintomas enquanto ignoramos as causas?
Mais do que um problema individual, o burnout é um alerta coletivo. E talvez esteja na hora de olhar pra ele não como o fim da linha, mas como o sinal visível de algo muito mais profundo e estrutural.
Quando o cansaço deixa de ser normal
Vivemos em uma cultura que glamourizou o esforço contínuo. Onde estar cansado passou a ser sinal de comprometimento. Onde a sobrecarga é muitas vezes celebrada como “entrega”. Nesse contexto, adoecer virou quase um desdobramento esperado. Mas é justamente aí que mora o perigo.
O burnout não nasce de um dia difícil. Ele é o acúmulo silencioso de pressões, metas inalcançáveis, jornadas extensas, falta de reconhecimento, insegurança e medo. E mesmo quem ama o que faz não está imune. Porque o problema não é só o que fazemos, mas como e sob quais condições estamos fazendo.
Sintoma de um sistema em crise
O aumento de casos de burnout entre pessoas jovens, especialmente na faixa dos 25 aos 40 anos, acende um alerta importante. Essa exaustão coletiva não é fruto de fraqueza individual, mas de um sistema que cobra demais, oferece pouco e empurra para uma lógica de constante performance.
Empresas ainda pouco preparadas para lidar com saúde mental. Falta de autonomia. Dificuldade em estabelecer limites. Tudo isso contribui para que o burnout não seja exceção, mas quase regra.
E se, em vez de tentar apenas “tratar” o burnout, a gente começasse a repensar o ambiente que o causa?
Além da terapia: repensar estrutura, não só o indivíduo
Fazer terapia ajuda. Meditação, pausas, caminhadas, também. Mas essas estratégias, sozinhas, não resolvem um problema que é coletivo. Não dá pra curar burnout com uma lista de autocuidados, se a base continua sendo exploração e desequilíbrio.
É preciso reavaliar a cultura de trabalho. As relações de poder. O que chamamos de sucesso. O tempo que estamos dispostos a abrir mão da nossa saúde para atender uma expectativa externa.
A parte submersa do iceberg
O burnout é um nome que damos para o cansaço que escapa dos limites. Mas ele é só o começo da conversa. A parte visível do iceberg.
Debaixo da superfície, existem histórias de exploração, medo de fracassar, insegurança financeira, sobrecarga invisível, e uma urgência de repensar a forma como estamos vivendo.
Encarar essa realidade pode ser desconfortável. Mas talvez seja o único caminho possível para construir uma vida que seja sustentável e não só rentável.

